Hermetismo Cristão
A "ioga" cristã não aspira à unidade do todo, mas à unidade de dois. É muito importante ter consciência da atitude tomada a respeito do problema infinitamente grave da unidade e da dualidade. Porque esse problema pode abrir a porta dos mistérios realmente divinos, e também no-la fechar. . . talvez para sempre. Tudo depende de sua compreensão. Podemos decidir-nos pelo monismo e dizer para nós mesmos que só existe — e só pode existir — uma única substância, um único ser. Podemos também decidir-nos — apoiando-nos numa considerável experiência histórica e pescoal — pelo dualismo e dizer-nos que existem dois princípios no mundo — o bem e o mal, o espírito e a matéria — e que, por mais incompreensível que essa dualidade seja, no fundo, devemos admiti-la como fato incontestável. Podemos ainda decidir-nos a favor de terceiro ponto de vista, o do amor como princípio cósmico que pressupõe a dualidade e postula sua unidade não substancial, mas essencial.
Esses três pontos de vista se encontram na base do Vedanta ("Advaita") e do espinosismo (monismo), do maniqueísmo e de algumas escolas gnósticas (dualismo) e da corrente judaico-cristã (Amor).
Para darmos mais clareza e precisão a esse problema, bem como para o atingirmos mais profundamente — tomaremos como ponto de partida o que diz do número dois Louis-Claude de Saint-Martin em seu livro Des nombres:
"Ora, para mostrarmos que, na base de sua atividade, eles (os números) estão interligados, comecemos observando o andamento da UNIDADE e do número DOIS.
Quando contemplamos uma verdade importante, como o poder universal do Criador, a sua majestade, o seu amor, as suas luzes profundas ou algum outro de seus atributos, voltamo-nos totalmente para esse modelo supremo de todas as coisas; todas as nossas faculdades suspendem sua atividade, para nos enchermos dele, e assim tornamo-nos realmente um com ele. Eis a imagem ativa da unidade; e o número UM é, em nossas línguas, a expressão dessa unidade ou da união indivisível que, existindo intimamente entre todos os atributos dessa unidade, deveria existir também entre ela e todas as suas criaturas de produção. Mas se, depois de termos dirigido todas as nossas faculdades de contemplação para essa fonte universal, voltarmos nossos olhos para nós mesmos e nos enchermos de nossa própria contemplação, de modo a nos vermos como princípio de algumas das clarezas ou satisfações interiores que essa fonte nos trouxe, nesse momento estabeleceremos dois centros de contemplação, dois princípios separados e rivais, duas bases não ligadas; estabeleceremos, enfim, duas UNIDADES, com a diferença de que uma será real e a outra, aparente" (p. 2). Em seguida acrescenta: "Mas dividir o ser pelo meio é dividi-lo em duas partes, é fazer o inteiro passar para a qualidade de metade ou meio; aqui está a verdadeira origem do binário ilegítimo..." (p. 3)... Este exemplo é suficiente para nos mostrar o nascimento do número DOIS, para nos mostrar a origem do mal. .." (p. 3).
A dualidade significa, portanto, o estabelecimento de dois centros de contemplação, de dois princípios separados e rivais, um real, o outro aparente; nisso está a origem do mal, que é o binário ilegítimo.
É essa a única interpretação possível da dualidade, do binário, do número dois? Não existe um binário legítimo? Um binário que não signifique diminuição da unidade, mas seu enriquecimento qualitativo?
Voltando à concepção de Saint-Martin, de "dois centros de contemplação", que são "dois princípios separados e rivais", podemos perguntar-nos se eles devem ser necessariamente separados e rivais. A própria expressão "con-templação" escolhida por Saint-Martin não sugere a ideia de dois centros que contemplam simultaneamente, como o fariam dois olhos colocados um em cima do outro, os dois aspectos da realidade, o aspecto fenomenal e o aspecto numênico? E que é graças a esses dois centros ou "olhos" que somos — ou podemos ser — conscientes "do que está em cima e do que está em baixo"? Poderíamos, por exemplo, enunciar a fórmula principal da Tábua de Esmeralda se tivéssemos um só olho ou centro de contemplação, em lugar de dois?
Ora, o Sepher Yetsirah diz:
"Dois é o sopro do Espírito: nele estão gravadas e esculpidas as vinte e duas cartas, que, não obstante, formam sopro único".
Em outros termos, dois é o Sopro e a sua Reflexão, é a origem do "Livro da Revelação", que é o mundo, bem como a Sagrada Escritura. Dois é o número da con-sciência do sopro e de suas cartas "gravadas e esculpidas". É o número da reintegração da consciência, ensinada pelo Mestre a Nicodemos, mediante a Água virginal e o Sopro do Espírito Santo.
Dois é tudo isso e mais ainda. O número dois não só não é necessariamente o "binômio ilegítimo" descrito por Saint-Martin, como ainda é o número do amor ou a condição fundamental do amor, que ele pressupõe e postula necessariamente. Porque o amor é inconcebível sem o Amante e o Amado, sem o EU e o TU, sem o Um e o Outro.
Se Deus fosse só Um e se ele não tivesse criado o Mundo, ele não seria o Deus revelado pelo Mestre, o Deus do qual diz São João:
"Deus é amor; aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele" (Jo 4,16).
Ele não o seria porque não amaria ninguém, exceto a si mesmo. Como isso é impossível do ponto de vista do Deus de Amor, ele é revelado à consciência humana como a Trindade eterna do Amante que ama, do Amado que ama e do Amor deles que os ama: Pai, Filho e Espírito Santo.